segunda-feira, 14 de abril de 2014

Conto premiado no Concurso de Literatura Unifor 2013

A redação de Rebeca
Um conto de Noberto Santos

“Você tinha razão, Isabela.” – Foi a primeira coisa que Leonardo pensou assim que viu o jovem casal chegar ao asilo. Logo em seguida seu coração começou a morrer.
Aos oitenta e quatro anos já experimentara pelo menos uma meia dúzia de enfartes, mas nenhum como aquele. Hereditariedade, disseram os médicos. Ainda que tivesse parado de fumar há mais de duas décadas sua herança genética continuava a persegui-lo como um inimigo inexpugnável. O curioso é que ele se arrependia de muitas coisas que fizera ou deixara de fazer na vida; dos cigarros, não. E naquele momento (com a morte lhe segurando a mão), estava decidido a provar se Isabela estava mesmo certa. Sim, antes que os enfermeiros do asilo lhe notassem a respiração agônica e lhe enchessem de remédios, precisava se levantar e caminhar até o casal. Seria fácil, eles conversavam com um grupo de idosos do outro lado do jardim.
Tentou se erguer. – O peso esmagador no peito ordenou que ficasse quietinho. – “Dane-se”, pensou, e jogou o corpo para frente. As pernas tremularam, o jardim girou como carrossel e a grama veio de encontro ao seu rosto. Duas enfermeiras correram para socorrê-lo, assim como o casal que conversava com o grupo de idosos. Quem diria, Deus, acabou dando certo de qualquer jeito.
Quando o elegante homem se afastou da esposa e se abaixou para apoiá-lo, Leonardo ignorou a dor excruciante no peito e lhe agarrou os braços, puxando-o mais para perto. Não havia dúvidas; aqueles eram os mesmos olhos azuis que ele avistara no verão de 1954. “Cristo”, não sabia como explicar, mas eram eles, e não haviam envelhecido um só dia durante todos aqueles anos! “Você tinha razão, Isabela”.
A vista escureceu, e à medida que o barulho nervoso das vozes diminuía em sua volta (como o volume de um rádio sendo abaixado), sua mente viajou no tempo, levando-o novamente até o singelo Colégio dos Salesianos, onde ele e Isabela anunciavam os alunos que haviam se destacado no ano letivo de 1954.
            – Bem, chegou a hora, pessoal – dizia Isabela ao microfone. – A grande vencedora do concurso de melhor redação deste ano é: Rebeca Rosalino! – e a multidão de pais e crianças irrompeu em aplausos.
            A menina se desvencilhou das dezenas de braços que tentavam enlaça-la e subiu ao palco.
            – Parabéns, querida. – Disse Isabela antes de se curvar e receber um beijo na bochecha da sorridente Rebeca. – Sua redação realmente me surpreendeu.
            A menina abraçou o troféu de campeã e desceu os degraus, indo sentar-se perto de um casal acomodado numa das últimas mesas adornadas para o evento. “Que pais privilegiados” – Leonardo pensou na época.
Ao final da festa, ele e Isabela foram conhecer a família de Rebeca.
            – Parabéns – lembra-se de ter dito ao homem, estendendo-lhe a mão. – Vocês têm uma filha genial.
            – Obrigado, professor – a voz carregava um suave sotaque europeu. – Sou Lorenzo, e esta é minha esposa, Constância. Estamos honrados em conhecê-los.
Agora, caído no jardim do asilo, Leonardo sabia que aqueles nunca foram seus nomes verdadeiros. Meu Deus, quantas vidas não viveram? Quantos nomes não criaram?
Após o aperto de mãos, o homem olhou para a esposa (como se já acostumado àquele equívoco corriqueiro), e respondeu a Leonardo, sorrindo:
 – Entretanto, professores, Rebeca não é nossa filha. É nossa neta.
               Neta? Não brinca. Quantos anos eles tinham afinal? – pensou Leonardo. – Trinta? Trinta e cinco? Virou-se para Isabela (que estava tão perplexa quanto ele), e daquela vez foram eles que riram. Lembra-se de não ter aberto mais a boca por já haver esgotado sua taxa de inconveniências, mas gostaria de ter acrescentado que a avó de Rebeca era nada menos que magnífica; pele límpida, bronzeada, e brilhantes olhos amendoados (os mesmos olhos que o encaravam agora por cima dos ombros dos médicos, no jardim do asilo). O avô de Rebeca era uma rocha; queixo másculo e pouquíssimos fios prateados nas têmporas. E que aperto de mão o filho da mãe tinha.
            – Puxa, estamos realmente surpresos. – Confessou Isabela. – Obrigada por me lembrarem do tempo que estou perdendo. – Tentou segurar a mão de Leonardo, mas ele se esquivou, discretamente.       – Não esperem muito, professores – o homem disse, estendendo-lhes um copo de suco de uva. – A vida não espera.
            Urgh! Uma espetada no braço o trazia de volta a 2013. Haviam lhe injetado uma ampola de adrenalina nas veias, era a equipe de médicos tentando reanimá-lo. “Não quer me ver morrer, doutor? Pergunte a esse casal aí atrás do senhor, eles descobriram como viver para sempre”.
Como se lhe ouvisse os pensamentos, o médico se virou para o casal:
– Vocês o conhecem?
– Não, doutor. – Respondeu o homem que ainda carregava os mesmos fios prateados nas têmporas. – Esta é a primeira vez que visitamos o asilo. – Agora ele usava outro sotaque, mas era a mesma voz, firme. Não envelheceram. Deus! – a revelação lhe veio como um raio – Foi a poção. Sim, a poção do padre. De alguma forma ela causara uma inexplicável anomalia aos seus corpos, e agora eles estavam condenados a viver para sempre. Eram imortais.
O círculo de curiosos que se formara em torno da equipe médica fitava-o aturdido. Ele viu as cabeças girarem, girarem, e foi outra vez transportado para a cadeira da roda gigante do tempo. Aquela seria sua última e derradeira viagem. Jamais voltaria. Isabela, Isabela, talvez tenha dito.
Em dezembro de 1954 a professorinha falava empolgada enquanto limpava as grossas lentes dos óculos. “Cadê vocês?”. Na saída da escola, o homem pagou os sorvetes e piscou para a esposa quando viu Isabela dar um beijo gelado no rosto de Leonardo. Rebeca dormia dentro do Buick 1953.
– Então – disse Isabela à mulher –, de certa forma, Rebeca se inspirou em vocês dois para fazer aquela redação, não foi? Engenhosa aquela menina.
            O casal se entreolhou, sorrindo. Aparentemente não sabiam do que Isabela lhes falava, por isso ela continuou, elevando a voz para sobrepujar o barulho dos carros que passavam:
            – A neta de vocês escreveu sobre o amor; certamente influenciada pela literatura estrangeira da biblioteca da escola. Ela iniciou a redação revelando que jamais existiu amor entre um homem e uma mulher semelhante ao que vocês dois ainda hoje compartilham. Disse que ao se conhecerem ficaram perdidamente apaixonados um pelo outro, mas não puderam ficar juntos por causa das suas famílias que se odiavam. Desesperados, vocês acabaram sendo convencidos por um padre a simularem as próprias mortes. O intuito final da farsa era apenas convencer a seus pais de que vocês realmente se amavam. Depois, quando o efeito da “poção mágica” criada pelo padre perdesse o efeito, vocês voltariam à vida e voilá: “Podemos nos casar agora?”.
Leonardo jamais se esqueceu do sorriso de Isabela diante daquela primeira exposição (mesmo que o casal tivesse permanecido sério). Não, “curioso” seria a palavra mais apropriada. Depois de terminado o sorvete e limpado as mãos no vestido, a professora justificou o mérito de Rebeca:
– Eu sei, eu sei. Até aqui nada de original, não é? Contudo, o que eu e Leonardo achamos realmente intrigante foi o desfecho novo que Rebeca deu à história. Ela escreveu que, após suas famílias deixarem o cemitério, o padre se apressou, e arrancou vocês dois de dentro dos túmulos; que tudo na verdade fizera parte de um plano ainda mais elaborado, envolvendo escorpiões não venenosos e sangue de mentira. Ele sabia que independente de qualquer coisa que vocês fizessem suas famílias jamais se suportariam. Então, seus corpos foram levados em carruagens para fora da cidade naquela mesma madrugada, e, na manhã seguinte, quando o sol de Siena afugentava as últimas estrelas no horizonte, vocês abriram os olhos, beijaram-se calorosamente, e viveram felizes para sempre. Final bem criativo para uma garotinha de dez anos, não acham?
O casal nada respondeu. A mulher cochichou alguma coisa aos ouvidos do marido e eles saíram após uma rápida despedida. Isabela e Leonardo ficaram parados na calçada da escola vendo-os se afastarem e sem saber o que tinha acontecido de errado (mal sabiam que Rebeca jamais voltaria ao colégio depois daquele dia). Ainda na mesma tarde, após um longo silêncio enquanto voltavam a pé para a casa de Isabela, ela perguntou:
– O que você acha?
– O que eu acho do quê?
– A história. A lenda que Rebeca usou como pano de fundo para... Será que... Oh, meu Deus!
Fora aí que um sol pareceu explodir no rosto da professora e uma energia incontrolável lhe sacudiu o corpo. Como uma criança que acabara de descobrir o presente escondido dos pais na noite de natal, ela começou a falar desenfreadamente, misturando riso e lágrimas. Leonardo nada disse (as mulheres sempre tiveram um sexto sentido que as tornam mais imaginativas que os homens), e a abraçou sem tentar dissuadi-la daquela ideia maluca. Levou-a para casa e se despediu sem beijá-la. Quando ia saindo pelo portão, ela perguntou (talvez envolvida pelo contexto romântico da tarde):
– Você me ama, Leonardo?
Dois anos depois ele acenaria para ela da janela do trem e nunca mais tocariam naquele assunto, até que ela se casasse em 1960 e lhe mandasse uma foto às margens do Sena. “Você ainda se lembra daquele dia?” – dizia o cartão.
Sim, por Deus – jamais poderia responder. – Onde está você agora, Isabela? Você tinha razão, razão sobre tudo: a redação de Rebeca, a simulação das mortes, a lenda que ninguém além de nós dois sabe ser verdadeira. Que os jovens de Siena são reais e que vivem escondidos até os dias de hoje, caminhando entre pessoas normais. Quantos filhos e netos não devem ter tido ao longo de mais de quatrocentos anos de vida?
E sim, eu te amo. Sempre te amei. Mas por medo, ou por egoísmo, sempre pensei que a vida fosse curta demais para ser dividida com outra pessoa além de mim mesmo. Que nunca teríamos estrutura suficiente para enfrentar o mundo ou educar filhos. Me perdoe, Isabela, me perdoe por nós dois. Me perdoe pela vida que jamais permiti que tivéssemos. Por Deus, me perdoe.



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