A
redação de Rebeca
Um conto de Noberto Santos
Um conto de Noberto Santos
“Você tinha razão, Isabela.” – Foi a
primeira coisa que Leonardo pensou assim que viu o jovem casal chegar ao asilo.
Logo em seguida seu coração começou a morrer.
Aos oitenta e quatro anos
já experimentara pelo menos uma meia dúzia de enfartes, mas nenhum como aquele.
Hereditariedade, disseram os médicos. Ainda que tivesse parado de fumar há mais
de duas décadas sua herança genética continuava a persegui-lo como um inimigo inexpugnável.
O curioso é que ele se arrependia de muitas coisas que fizera ou deixara de
fazer na vida; dos cigarros, não. E naquele momento (com a morte lhe segurando
a mão), estava decidido a provar se Isabela estava mesmo certa. Sim, antes que
os enfermeiros do asilo lhe notassem a respiração agônica e lhe enchessem de
remédios, precisava se levantar e caminhar até o casal. Seria fácil, eles
conversavam com um grupo de idosos do outro lado do jardim.
Tentou se erguer. – O
peso esmagador no peito ordenou que ficasse quietinho. – “Dane-se”, pensou, e jogou o corpo para frente. As pernas
tremularam, o jardim girou como carrossel e a grama veio de encontro ao seu rosto.
Duas enfermeiras correram para socorrê-lo, assim como o casal que conversava
com o grupo de idosos. Quem diria, Deus,
acabou dando certo de qualquer jeito.
Quando o elegante homem
se afastou da esposa e se abaixou para apoiá-lo, Leonardo ignorou a dor
excruciante no peito e lhe agarrou os braços, puxando-o mais para perto. Não
havia dúvidas; aqueles eram os mesmos olhos azuis que ele avistara no verão de 1954.
“Cristo”, não sabia como explicar,
mas eram eles, e não haviam envelhecido um só dia durante todos aqueles anos! “Você tinha razão, Isabela”.
A vista escureceu, e à
medida que o barulho nervoso das vozes diminuía em sua volta (como o volume de
um rádio sendo abaixado), sua mente viajou no tempo, levando-o novamente até o
singelo Colégio dos Salesianos, onde ele e Isabela anunciavam os alunos que
haviam se destacado no ano letivo de 1954.
–
Bem, chegou a hora, pessoal – dizia Isabela ao microfone. – A grande vencedora do
concurso de melhor redação deste ano é: Rebeca Rosalino! – e a multidão de pais
e crianças irrompeu em aplausos.
A
menina se desvencilhou das dezenas de braços que tentavam enlaça-la e subiu ao
palco.
–
Parabéns, querida. – Disse Isabela antes de se curvar e receber um beijo na
bochecha da sorridente Rebeca. – Sua redação realmente me surpreendeu.
A
menina abraçou o troféu de campeã e desceu os degraus, indo sentar-se perto de
um casal acomodado numa das últimas mesas adornadas para o evento. “Que pais
privilegiados” – Leonardo pensou na época.
Ao final da festa, ele
e Isabela foram conhecer a família de Rebeca.
–
Parabéns – lembra-se de ter dito ao homem, estendendo-lhe a mão. – Vocês têm
uma filha genial.
–
Obrigado, professor – a voz carregava um suave sotaque europeu. – Sou Lorenzo,
e esta é minha esposa, Constância. Estamos honrados em conhecê-los.
Agora, caído no jardim
do asilo, Leonardo sabia que aqueles nunca foram seus nomes verdadeiros. Meu Deus, quantas vidas não viveram?
Quantos nomes não criaram?
Após o aperto de mãos, o
homem olhou para a esposa (como se já acostumado àquele equívoco corriqueiro),
e respondeu a Leonardo, sorrindo:
– Entretanto, professores, Rebeca não é nossa filha.
É nossa neta.
Neta?
Não brinca. Quantos anos eles tinham afinal? – pensou Leonardo. – Trinta? Trinta
e cinco? Virou-se para Isabela (que estava tão perplexa quanto ele), e daquela
vez foram eles que riram. Lembra-se de não ter aberto mais a boca por já haver
esgotado sua taxa de inconveniências, mas gostaria de ter acrescentado que a avó
de Rebeca era nada menos que magnífica; pele límpida, bronzeada, e brilhantes olhos
amendoados (os mesmos olhos que o encaravam agora por cima dos ombros dos
médicos, no jardim do asilo). O avô de Rebeca era uma rocha; queixo másculo e pouquíssimos
fios prateados nas têmporas. E que aperto de mão o filho da mãe tinha.
–
Puxa, estamos realmente surpresos. – Confessou Isabela. – Obrigada por me
lembrarem do tempo que estou perdendo. – Tentou segurar a mão de Leonardo, mas
ele se esquivou, discretamente. – Não
esperem muito, professores – o homem disse, estendendo-lhes um copo de suco de
uva. – A vida não espera.
Urgh! Uma espetada no braço o trazia de
volta a 2013. Haviam lhe injetado uma ampola de adrenalina nas veias, era a equipe
de médicos tentando reanimá-lo. “Não quer
me ver morrer, doutor? Pergunte a esse casal aí atrás do senhor, eles
descobriram como viver para sempre”.
Como se lhe ouvisse os
pensamentos, o médico se virou para o casal:
– Vocês o conhecem?
– Não, doutor. –
Respondeu o homem que ainda carregava os mesmos fios prateados nas têmporas. –
Esta é a primeira vez que visitamos o asilo. – Agora ele usava outro sotaque, mas
era a mesma voz, firme. Não envelheceram. Deus!
– a revelação lhe veio como um raio – Foi
a poção. Sim, a poção do padre.
De alguma forma ela causara uma inexplicável anomalia aos seus corpos, e agora eles
estavam condenados a viver para sempre. Eram imortais.
O círculo de curiosos que
se formara em torno da equipe médica fitava-o aturdido. Ele viu as cabeças
girarem, girarem, e foi outra vez transportado para a cadeira da roda gigante do
tempo. Aquela seria sua última e derradeira viagem. Jamais voltaria. Isabela, Isabela, talvez tenha dito.
Em dezembro de 1954 a
professorinha falava empolgada enquanto limpava as grossas lentes dos óculos. “Cadê vocês?”. Na saída da escola, o
homem pagou os sorvetes e piscou para a esposa quando viu Isabela dar um beijo
gelado no rosto de Leonardo. Rebeca dormia dentro do Buick 1953.
– Então – disse Isabela
à mulher –, de certa forma, Rebeca se inspirou em vocês dois para fazer aquela
redação, não foi? Engenhosa aquela menina.
O
casal se entreolhou, sorrindo. Aparentemente não sabiam do que Isabela lhes
falava, por isso ela continuou, elevando a voz para sobrepujar o barulho dos
carros que passavam:
–
A neta de vocês escreveu sobre o amor; certamente influenciada pela literatura
estrangeira da biblioteca da escola. Ela iniciou a redação revelando que jamais
existiu amor entre um homem e uma mulher semelhante ao que vocês dois ainda
hoje compartilham. Disse que ao se conhecerem ficaram perdidamente apaixonados
um pelo outro, mas não puderam ficar juntos por causa das suas famílias que se
odiavam. Desesperados, vocês acabaram sendo convencidos por um padre a simularem
as próprias mortes. O intuito final da farsa era apenas convencer a seus pais
de que vocês realmente se amavam. Depois, quando o efeito da “poção mágica”
criada pelo padre perdesse o efeito, vocês voltariam à vida e voilá: “Podemos nos casar agora?”.
Leonardo jamais se
esqueceu do sorriso de Isabela diante daquela primeira exposição (mesmo que o
casal tivesse permanecido sério). Não, “curioso” seria a palavra mais
apropriada. Depois de terminado o sorvete e limpado as mãos no vestido, a
professora justificou o mérito de Rebeca:
– Eu sei, eu sei. Até aqui
nada de original, não é? Contudo, o que eu e Leonardo achamos realmente intrigante
foi o desfecho novo que Rebeca deu à história. Ela escreveu que, após suas
famílias deixarem o cemitério, o padre se apressou, e arrancou vocês dois de
dentro dos túmulos; que tudo na verdade fizera parte de um plano ainda mais
elaborado, envolvendo escorpiões não venenosos e sangue de mentira. Ele sabia
que independente de qualquer coisa que vocês fizessem suas famílias jamais se
suportariam. Então, seus corpos foram levados em carruagens para fora da cidade
naquela mesma madrugada, e, na manhã seguinte, quando o sol de Siena afugentava
as últimas estrelas no horizonte, vocês abriram os olhos, beijaram-se
calorosamente, e viveram felizes para sempre. Final bem criativo para uma
garotinha de dez anos, não acham?
O casal nada respondeu.
A mulher cochichou alguma coisa aos ouvidos do marido e eles saíram após uma
rápida despedida. Isabela e Leonardo ficaram parados na calçada da escola vendo-os
se afastarem e sem saber o que tinha acontecido de errado (mal sabiam que
Rebeca jamais voltaria ao colégio depois daquele dia). Ainda na mesma tarde, após
um longo silêncio enquanto voltavam a pé para a casa de Isabela, ela perguntou:
– O que você acha?
– O que eu acho do quê?
– A história. A lenda
que Rebeca usou como pano de fundo para... Será que... Oh, meu Deus!
Fora aí que um sol
pareceu explodir no rosto da professora e uma energia incontrolável lhe sacudiu
o corpo. Como uma criança que acabara de descobrir o presente escondido dos
pais na noite de natal, ela começou a falar desenfreadamente, misturando riso e
lágrimas. Leonardo nada disse (as mulheres sempre tiveram um sexto sentido que
as tornam mais imaginativas que os homens), e a abraçou sem tentar dissuadi-la
daquela ideia maluca. Levou-a para casa e se despediu sem beijá-la. Quando ia
saindo pelo portão, ela perguntou (talvez envolvida pelo contexto romântico da
tarde):
– Você me ama,
Leonardo?
Dois anos depois ele
acenaria para ela da janela do trem e nunca mais tocariam naquele assunto, até
que ela se casasse em 1960 e lhe mandasse uma foto às margens do Sena. “Você ainda se lembra daquele dia?” –
dizia o cartão.
Sim,
por Deus – jamais poderia responder. – Onde está você agora, Isabela? Você tinha razão, razão sobre tudo: a redação de Rebeca, a simulação das mortes,
a lenda que ninguém além de nós dois sabe ser verdadeira. Que os jovens de
Siena são reais e que vivem escondidos até os dias de hoje, caminhando entre
pessoas normais. Quantos filhos e netos não devem ter tido ao longo de mais de
quatrocentos anos de vida?
E
sim, eu te amo. Sempre te amei. Mas por medo, ou por egoísmo, sempre pensei que
a vida fosse curta demais para ser dividida com outra pessoa além de mim mesmo.
Que nunca teríamos estrutura suficiente para enfrentar o mundo ou educar
filhos. Me perdoe, Isabela, me perdoe por nós dois. Me perdoe pela vida que
jamais permiti que tivéssemos. Por Deus, me perdoe.